Os jornalistas e as agências de comunicação

Para assinalar o primeiro ano da Guess What PR, solicitámos a um grupo de jornalistas de marketing, uma opinião sobre o que mais e menos gostam no relacionamento com agências de comunicação. Acima de tudo queríamos iniciar uma reflexão de interesse entre alguns dos principais intervenientes na esfera da assessoria mediática. Por aqui acreditamos no diálogo e na partilha de ideias como a forma mais rápida solucionar discrepâncias de actuação.

Gostaríamos de ter tido mais feed-back sobre o tema mas o que recebemos é bem válido. Aqui fica testemunho de um dos bons jornalistas da área do marketing e comunicação de um meio nacional (que, por motivos profissionais, preferiu não ser identificado). Alguns dos pontos focados são de extrema relevância e servem para reflexão:

“Acho que as agências de comunicação são boas gestoras de informação e acho que o jornalismo seria um pouco caótico sem elas. Do ponto de vista das empresas, na minha opinião elas são indispensáveis. Para os jornalistas, dão jeito em certos momentos. Permitem mais facilmente chegar a algumas fontes (as boas agências, claro). Muitas vezes dão dicas para artigos interessantes, fazem sugestões de entrevistas pertinentes, comunicam novidades empresariais, etc.
O reverso da medalha (que continua a ser essencial, na óptica das empresas) é termos mais um interlocutor quando se tenta chegar, rapidamente à fonte. Não raras vezes o jornalista é remetido, por vezes pela própria fonte, para a sua agência de comunicação. Que atrapalha, atrasa, esconde a informação. Isto acontece todos os dias. Outra dos pontos negativos das agências de comunicação é a quantidade incrível de informação que debita para os meios errados. Basta um jornalista passar a manhã numa entrevista, ou numa conferência de imprensa e chegar à redacção às 15h para o seu dia ficar desesperante com a quantidade de emails desinteressantes que recebe. Perde-se imenso tempo a gerir os mails realmente interessantes, o que acaba por, por vezes, deixar alguns relevantes para trás. Esta discussão tem sido feita, entre jornalistas, no Twitter. Se eu trabalho num jornal desportivo, ou na secção de Política do Público, porque razão recebo um convite para a apresentação de uma nova debulhadora em Beja?
Outro dos pontos negativos tem a ver com o facto de, quando por vezes um jornalista tem uma «cacha» sobre determinado assunto e não consegue uma reacção oficial para o confirmar (ou não tem o contacto da pessoa/não consegue passar pela secretária e chegar até ela), e tenta confirmar a informação com a agência de comunicação, não é raro acontecer três coisas: a agência “esquecer-se” de responder ou não comentar a informação, afirmando em “off” que não é verdadeira (quando o é); lançar um comunicado de imprensa com essa informação para todos os meios, acabando nesse momento com a «cacha» jornalística; ligar para os meios concorrentes a dar a informação em off. Isto acontece muitas vezes.
Finalmente, e para não me alongar, acho que existe um problema de hierarquia de meios de comunicação. Os jornalistas têm a noção que o circuito das agências de comunicação funciona um bocado assim. Se eu trabalhar no Expresso, tenho acesso a todas as notícias em primeira mão. Se trabalhar no Diário Económico, a quase todas as de economia. E por esta ordem. Na semana passada o Salvador da Cunha dizia no seu blog que foi contactado por um jornalista, que ao tentar confirmar certa notícia com uma fonte de vários anos, esta disse-lhe que não podia falar porque a agência de comunicação já tinha dado a cacha ao Expresso…”