Agarrem-me que eu vou-me a ele

Dizem que é mau, que faz e acontece
Arma confusão e o diabo a sete
Agarrem-me que eu vou-me a ele
Nem sei o que lhe faço

Assim cantava Ana Bacalhau, voz dos Deolinda, há quase 20 anos. A ideia do “agarrem-me que eu vou-me a ele” pode ser considerada bem portuguesa e a expressão, ainda mais antiga do que esta cantiga, fala de um certo tipo de bluff que faz crer o outro que vamos tomar uma atitude, sem que tenhamos verdadeira intenção de sair do lugar.

Vem tudo isto a propósito da comunicação de Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América. Não estou aqui para discutir política, apesar de as minhas ideias serem um tudo nada diferentes das do POTUS. Trump, há não muitos dias, ameaçava matar uma civilização inteira numa noite. Falava do Irão, herdeiro da Pérsia, um dos impérios mais significativos da Humanidade. Felizmente, recuou e deu mais tempo aos iranianos para fazer da vontade de Trump, as suas.

Este e outros exemplos de dizer coisas sem que elas tenham sequência ou consequência têm sido habituais neste segundo mandato de Trump. O que provoca nos seus públicos-alvo?

Parece haver uma parte do público, o “seu”, a quem parece importar pouco o que diz. Para eles, está sempre certo e é sempre assertivo e coerente. Mas Trump precisa de apelar a mais públicos. Desde logo, a fatia de americanos que quer convencer a gostar dele, a começar pelos membros do seu partido.  

Ser incoerente, mudar de posição com frequência e fazer fortes ameaças que, felizmente, não vão em frente, têm um grande inconveniente em comunicação. Ninguém acredita no mensageiro, mesmo que a mensagem venha a ser de importância global.

Francisco Reis, Partner e Head of Corporate Communication