Hoje, perante uma dúvida, um sintoma ou até um diagnóstico, é natural procurar respostas. Pesquisamos no Google, seguimos profissionais de saúde nas redes sociais, procuramos e vemos vídeos no TikTok, ouvimos podcasts, lemos testemunhos de outras pessoas e, cada vez mais, recorremos também a ferramentas de inteligência artificial ao primeiro sintoma que temos. A informação parece estar à distância de poucos segundos, mas ter mais informação disponível não significa, necessariamente, estar mais informado. E é precisamente aqui que a literacia em saúde assume uma importância cada vez maior.
A literacia em saúde não passa apenas por conhecer uma doença, identificar sintomas ou saber que determinado tratamento existe. Implica conseguir encontrar informação, compreendê-la, perceber se é credível e, sobretudo, utilizá-la para tomar decisões relacionadas com a saúde. Num contexto em que somos permanentemente expostos a conteúdos, este exercício tornou-se mais complexo, porque a informação científica convive, no mesmo espaço, com opiniões, experiências pessoais, tendências, conteúdos patrocinados e desinformação. Um vídeo de poucos segundos pode surgir lado a lado com uma recomendação de um profissional de saúde e, para quem recebe a mensagem, distinguir aquilo que é evidência daquilo que é apenas uma experiência individual nem sempre é simples.
É também por isso que comunicar saúde se tornou um desafio maior. Durante muito tempo, comunicar podia ser entendido como transmitir informação, mas hoje isso já não é suficiente. Não basta garantir que uma mensagem está cientificamente correta; é necessário que seja compreensível para quem a recebe, que tenha contexto, que seja relevante e que consiga chegar às pessoas num ambiente onde milhares de outras mensagens disputam a mesma atenção. Uma informação pode estar absolutamente correta e, ainda assim, não cumprir o seu objetivo se não for compreendida por quem precisa dela.
Simplificar informação sobre saúde também não significa retirar-lhe rigor. Pelo contrário, transformar conceitos científicos complexos em mensagens claras exige compreender aquilo que é verdadeiramente essencial, escolher as palavras certas e encontrar formas de aproximar a informação da realidade das pessoas. É diferente explicar uma doença apenas através da sua definição clínica ou explicar de que forma essa doença pode condicionar alguém a trabalhar, cuidar dos filhos, dormir ou manter a sua rotina. Nos dois casos, a informação pode estar correta, mas a forma como é apresentada pode determinar a capacidade de gerar compreensão e, consequentemente, impacto.
É aqui que a comunicação assume também um papel importante na promoção da literacia em saúde. Comunicar não é apenas transmitir conhecimento, mas ajudar a criar pontes entre a ciência e a vida das pessoas, percebendo quais são as dúvidas que existem, os mitos que persistem, as barreiras que dificultam a procura de ajuda e até a linguagem utilizada para falar sobre determinada condição. Significa também reconhecer que diferentes pessoas têm diferentes níveis de conhecimento, contextos e formas de receber e interpretar informação.
Esta responsabilidade não pertence apenas a quem trabalha diretamente na área da saúde. Profissionais de saúde, associações de doentes, instituições, empresas, jornalistas e criadores de conteúdos contribuem, todos os dias, para a forma como determinados temas de saúde são compreendidos pela sociedade. Num momento em que qualquer pessoa pode produzir, interpretar e partilhar informação, esta responsabilidade torna-se ainda mais relevante.
Talvez por isso, no Dia Mundial da Literacia, o desafio não seja apenas pensar em como disponibilizamos mais informação, mas sobretudo em como tornamos essa informação mais clara, acessível e útil. O verdadeiro impacto da comunicação em saúde não se mede apenas pelo número de pessoas a quem uma mensagem chega, mas também pela capacidade dessa mensagem ajudar alguém a compreender melhor a sua saúde e, eventualmente, a tomar uma decisão mais informada.
Num mundo onde nunca tivemos tantas respostas disponíveis, talvez o verdadeiro desafio seja garantir que temos também as ferramentas necessárias para as compreender, avaliar e transformar em melhores decisões.
Vanessa Rolim, Healthcare Communication Manager